• Prange, A. P.

Eu deveria estar feliz porque moro na Europa

Mis à jour : 8 déc. 2019

Ana Paula Prange [1]



As pessoas se mudam de país por motivos familiares, profissionais ou simplesmente motivadas pelo desejo de viverem em uma nova cultura. Não podem prever, porém, todos os desafios que irão enfrentar. Mesmo quando cumprem todos os procedimentos legais, diversas surpresas podem surgir.


São frequentes os choques culturais que a levam a questionar os valores, as crenças e os padrões nos quais foram criadas. Ou, ao contrário, se enrijecem e não conseguem estar abertas para as novas experiências. Frente à novidade tendem a pensar "Ah, mas isso ai, « lá na minha terra era bem melhor ». Há também, em alguns casos , a perda do status social que se tinha no país de origem ("Lá eu era rei, aqui eu sou "Zé ninguém").

Aos obstáculos relacionados ao idioma se juntam problemas de adaptação profissional, acadêmica ou escolar, dificuldades de relacionamento e dilemas ideológicos. A identidade é posta em xeque, o que desestabiliza e fragiliza. Por isso é comum que o imigrante se sinta mais vulnerável frente às situações tidas como banais para os cidadãos locais.


Desabafar com os amigos e familiares nem sempre é fácil ou bem visto. No caso daqueles que vem de países latinos que estão em crise, os amigos e parentes que vivem lá talvez vão dizer: “Você vive na Europa, pare de reclamar”!

Enfim… são muitos desafios! Só com um bom esforço empático quem nunca viveu essa situação pode compreender.

"Eu devia estar contente"

​Venho experimentando os efeitos da mudança de cultura e de país desde 2015. E, enquanto psicóloga observo fenômenos experimentados por pessoas que vivem em um pais estrangeiro. Seus relatos falam frequentemente de uma angústias difusa e de sofrimento, amplificado pelo fato dessas pessoas acharem que só elas passam por essa situação.


E, ainda, a frase mais ouvida : "Eu deveria estar feliz". Ou, como diz a musica de Raul Seixas, "Eu devia estar contente"... "Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis. Mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado..."


O fato é que dizer a si mesmo "Eu devia estar feliz" raramente ajudou ou vai ajudar alguém a se sentir melhor e realmente satisfeito em relação à própria vida. Contrariamente, aceitar que existe uma insatisfação difícil de suportar em um dado momento ou uma criança ferida que chora no interior de si pode ser o primeiro passo para uma transformação - de si, mas às vezes também das condições exteriores - rumo a uma vida mais plena, mais feliz ou mais interessante.

Para isso é preciso ir além da visão simplista de "adaptação" como alguma coisa passiva e sem gradações, uma visão que poderia ser traduzida pela frase "Ou eu me adapto ou eu volto para o meu país". Ora, a coisa toda é muito mais complexa, principalmente quando o país de origem vive uma crise econômica e política como há tempos não se via. Adaptar-se ao país "escolhido" não significa que o imigrante vai apreciar tudo que ele oferece e nem confrontar as marcas do progresso social sem sofrimento. Não significa também ter que anular todas as vivências anteriores e esquecer quem foi um dia (o nome disso é lavagem cerebral, processo frequentemente utilizado pelas seitas).

Acredito que compreender que uma parte desse sofrimento ligado à mudança de cultura, à mudança de hábitos e à perda das referências habituais pode, para muitos, ajudar a aliviar um pouco esse peso. O peso de achar que não deveria estar sofrendo. Em outras palavras, que "deveria estar contente".

Flexibilidade elástica ou adaptação plástica ?

Inspirada na obra de Laurel Noriega (1989), penso em dois conceitos da física : elasticidade e plasticidade. O elástico é muito flexível, porém sua qualidade "flexível" não cria nada. Quando usamos um elástico contamos com sua capacidade de ir e vir, num movimento único e previsível. Porém, quando ele exaure suas capacidades ele arrebenta e toda a sua utilidade é perdida. O elástico é um especialista da adaptação sem criação.

Há o plástico. O plástico se molda à forma do que ele vai embalar. Ele cria possibilidades e faz acordos vivendo o que se apresenta. Ele se adapta de forma criativa mas isso não o faz sofrer mais do que a situação pede e nem o exaure, mesmo que assuma diferentes formas.

Esses fenômenos da física podem nos inspirar quando pensamos no tipo de adaptação que desejamos, cada um de nós, adotar nas nossas vidas ? Escolho ser passivo e previsível, adotando uma adaptação pró-forma e sendo o que esperam de mim sem me posicionar nas escolhas que faço, tomando as decisões pela via do automatismo ? Ou decido aproveitar as oportunidades dadas por essa mudança cultural para ser enfim eu mesmo, desenvolver meus potenciais escondidos e explorar sem medo as possibilidades dadas pelo meus mundos interior e exterior?

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A observação dos fenômenos psicossociais ligados às mudanças culturais e o desejo de apoiar as formas criativas de adaptação me levaram a pensar nessa proposta: um grupo terapêutico intercultural para estrangeiros.as que moram em Toulouse. Mais informações estão disponíveis (em francês) no link Ateliers/Groupe de parole interculturel

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​ [1] psicóloga, psicoterapeuta, PhD em Saúde pública (Fiocruz, Brasil)


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