• Prange, A. P.

Reconhecimento no trabalho e narcisismo

Mis à jour : 8 déc. 2019

Ana Paula Prange [1]



No dia 1º de maio comemoramos o Dia Mundial do Trabalho. Nesta data trabalhadores, sindicalistas e aqueles que lutam pelos direitos dos trabalhadores se põem a pensar o mundo do trabalho e as formas que este vêm assumindo nos dias atuais. Salários, benefícios, jornadas e condições de trabalho são debatidos em todo o mundo. Manifestações são organizadas em várias capitais.


Podemos também aproveitar esta data para pensar a questão do reconhecimento no trabalho. Sendo o trabalho uma via privilegiada para nossa relação com o mundo, ele é repleto de oportunidades para a construção (e reconstrução) da identidade, estabelecimento de vínculos sociais e produção de sentido.


Dejours[2] afirma ser o reconhecimento no trabalho um componente essencial da nossa saúde mental. A sensação de estar produzindo algo belo, bom ou útil para o mundo em que se vive e de estar contribuindo para a manutenção da vida estão ligadas a essa necessidade de reconhecimento. A necessidade de reconhecimento é, assim, universal.


O trabalho nos remete ao real

O trabalho nos remete ao "real" : as frustrações, as diferenças de opinião, os conflitos de valores e de prioridades, as "surpresas" do cotidiano. Mas nos apresenta também o resultado do trabalho alheio. Quantas vezes por dia usufruímos de um bom trabalho feito por alguém? Quantas vezes paramos para pensar em todo o trabalho presente nas entrelinhas da vida cotidiana? Em tudo o que precisamos para viver há trabalho envolvido. Para que o alimento nos chegue, alguns plantaram, outros colheram, alguns transportaram, outros venderam. Para nos locomover alguns pavimentaram as estradas e outros participaram da produção dos automóveis, muitas vezes arriscando a própria vida nestas funções. Não haveria vida sem o trabalho humano. Por isso o reconhecimento no trabalho é fundamental.


O reconhecimento pelo “outro” no trabalho se manifesta de diferentes maneiras, vindo geralmente da chefia, dos colegas e dos usuários finais. Isso, porém, não é suficiente. É preciso que cada um possa também se reconhecer no que faz! Em seu "Trabalho vivo" volume 1, Dejours (2013)[2] afirma "O amor de si no trabalho é o amor de seu próprio corpo e desta maneira o trabalho é uma via possível para o narcisismo”.


Narciso e sua busca incessante de reconhecimento

Para compreendermos a necessidade de reconhecimento pode ser útil revisitarmos o conceito de narcisismo e o mito grego de Narciso. Narciso era filho de uma ninfa com o deus Cefiso. Jovem de rara beleza, é apreciado por homens e mulheres, mas permanece indiferente a todas as manifestações. Uma das ninfas rejeitadas por Narciso implora aos deuses por vingança, o que acaba se concretizando de uma forma irônica: Narciso se apaixona pela única pessoa que ele não poderá nunca conquistar: ele mesmo. Esse amor impossível o conduz a um sofrimento imenso e ele decide então se matar[3].


Daí vem o termo narcisismo, usado pela Psicanálise para se referir ao amor próprio que, em doses moderadas, mantém nossa saúde física e mental. Freud propôs os conceitos de narcisismo primário e narcisismo secundário para explicar a instauração do amor-próprio (e de seus possíveis obstáculos) no desenvolvimento infantil.


A criança, no seu processo de se entender como parte de um ambiente, experimenta a libido do ego e a libido objetal. O equilíbrio entre essas duas libidos garantiria um desenvolvimento saudável com doses razoáveis de narcisismo. O excesso de amor por si mesmo resultará numa disfunção narcísica[4].


O trabalho pode ser uma oportunidade valiosa para pormos à prova o nosso narcisismo e talvez até mesmo de regula-lo.


Trabalho, reconhecimento e auto-reconhecimento

O narcisismo em doses moderadas é um indicativo de saúde mental. O trabalho pode ser uma oportunidade valiosa para pormos à prova o nosso narcisismo e talvez até mesmo de regula-lo pois, por mais que nos consideremos muito interessantes, inteligentes ou eficazes, seremos obrigados a nos confrontar com o real da atividade. E com as diferenças em relação aos colegas, chefes e clientes/usuários/clientes/consumidores do nosso trabalho.


Qual era o problema de Narciso? Seu problema é que mesmo admirando a própria beleza, ele era incapaz de se colocar à prova, de se colocar em processo de experimentação, de lidar com o real. O real em seu caso teria sido se relacionar com outras pessoas, de se ver enquanto sujeito e reinventar a si mesmo em cada atividade. Nesta posição passiva perante à vida só lhe restava o papel de vítima de sua própria beleza, de seu Eu idealizado... sem poder interagir com o "real", confrontar as frustrações e usufruir das surpresas que fazem parte da vida.


O processo de auto-reconhecimento na atividade de trabalho é um exercício que requer um trabalho também (um trabalho de si sobre si, arbeit em alemão). Trabalho interno que nos convida a sair da posição passiva de alguém que está sempre à espera de um olhar externo. Pode incluir, por exemplo, questionamentos e constatações como:


- Consigo ver neste trabalho uma oportunidade de pôr à prova minhas certezas sobre mim e sobre o mundo e de experimentar, dessa forma, diferentes facetas do meu "eu"?

- Reconheço que muitos poderiam fazer o que faço, mas talvez não da mesma maneira que eu. Essa constatação me traz mais alegria do que angustia?

- Ao me deparar com as dificuldades apresentadas pela realidade, empreendo novas buscas em um processo de aprendizado contínuo?

- Será que minha busca de reconhecimento é razoável ou ela visa superar minha falta de gosto e de prazer com o objeto de meu trabalho e com a atividade em si mesma?


Talvez este trabalhador que se queixa está realmente passando por um processo de despersonalização ligado ao seu trabalho, ou mesmo sendo vítima de assédio moral. Mas talvez seja somente uma manifestação narcísica que merece ser melhor regulada. O contexto precisa ser compreendido, e com ele todos os atores e elementos envolvidos.


É neste tipo de situação que um psicólogo clinico do trabalho pode ser útil. Ele poderá atuar a nível individual ou dentro de um âmbito coletivo de trabalho. O fundamental é compreender que o narcisismo exagerado, assim como a falta de reconhecimento no trabalho pode causar graves danos à saúde mental. Não se tratam de problemas que devem ser menosprezados ou deixados para profissionais não especializados.

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[1] psicóloga, psicoterapeuta, PhD em Saúde pública (Fiocruz, Brasil)

[2] Dejours C. Addendum. Da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. In: Lancman S, Sznelwar LI, organizadores. Christophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. 3a ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz; 2011. p. 57-123.

[3] http://www.centraldogma.be/narcisseresumedu.html

[4] Crussy, Darmancier, Perret e Palumbo, s.d, disponível em https://psychaanalyse.com/pdf/MYTHE_NARCISSE_ET_NARCISSISME.pdf


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