• Prange, A. P.

Escutar e falar, duas competências relacionais

Mis à jour : avr. 21

Ana Paula Prange[1]



Escutar e falar são ações cotidianas que podem ser consideradas quase que “naturais” para os seres humanos. Mas, escutar realmente e se expressar bem não são competências inatas. Quando eu menciono “escutar realmente” e “se expressar bem”, eu não me refiro à acuidade auditiva ou ao domínio da língua, mesmo se essas duas habilidades podem contribuir à comunicação de qualidade. Meu interesse é pensar nessas capacidades como verdadeiras competências relacionais.


A escuta ativa [2]

​A escuta ativa é uma competência relacional de importância ímpar, seus benefícios vão bem além do que as escutas passiva e projetiva podem nos oferecer.


No caso da escuta passiva a pessoa está presente, mas não realmente. Isto quer dizer que ela escuta o outro já pensando no que vai dizer no instante após que seu interlocutor se cala ou dá uma paradinha para respirar. O tempo que a outra pessoa leva para se expressar é vivido como uma perda de tempo. Desse modo, a escuta passiva pode se manifestar por uma tendência à reatividade. Compreender o outro e seu sistema de referências não é o objetivo deste interlocutor.


No caso da escuta projetiva [3], há uma projeção sobre o outro do que ele pensa ou quer dizer. Uma “seleção” é realizada, pela suposição do que parece ser a mensagem mais importante. O conteúdo é então interpretado segundo o ponto de vista daquele que escuta, o que é frequente nos processos de comunicação. O “perigo” deste tipo de escuta é que o ouvinte seletivo não se dá o trabalho de ir checar se o que ele compreendeu é realmente o que parece o mais importante para aquele que se expressa. Este ouvinte vai ficar com a sua versão, sua compreensão da mensagem emitida é limitada e parcial.


A escuta ativa corresponde à compreensão do que o outro quer dizer no contexto atual e a partir do seu sistema de referência que lhe é próprio. Isto quer dizer aceitar que, quando o outro fala, ele o faz a partir do seu ponto de vista. Este ultimo é resultado de diversas vivências passadas, do lugar onde ele se encontra, mas também de como e por que ele chegou onde ele se encontra aqui e agora. O lugar que ele ocupa no seu núcleo familiar, seu status social, seus gostos, hábitos, preferencias culturais, religiosas, políticas e as influências que o constituem.


Apreender este fato demanda uma certa disponibilidade para deixar em suspensão o próprio sistema de referencias e valores para poder realmente escutar o outro. A escuta exige coragem porque deixar de lado seu próprio sistema de referências é, por alguns, um risco.


A expressão de si

Quando uma pessoa fala, ela não é neutra. A ação mesmo de falar é induzida pelo ambiente ou ambientes nos quais ela se construiu. Pouco a pouco a palavra se afirma, se sujeita, se libera ou se opõe. Quando uma pessoa fala ela se escuta, e se constrói também em relação ao outro ao qual ela se dirige. Quando falamos, nos dirigimos a quem está diante de nós, mas também ao que nos projetamos sobre este alguém, ao que pensamos que ele (ou ela) pensa.


Para Bakhtine,

No dialogo o homem não se manifesta apenas do exterior, mas torna-se pela primeira vez o que ele é realmente, e não somente aos olhos dos outros, mas aos seus também. Ser é poder se comunicar dialogicamente. Quando o diálogo para, tudo para[4].


Esse jogo que implica falar, escutar, sentir que alguém nos escuta, é uma arte que poucos de nos tiveram a ocasião de aprender nas primeiras etapas do desenvolvimento. Num mundo ideal as escolas e as famílias seriam os ambientes apropriados para descobrir a comunicação ativa, ainda que a capacidade de identificar e expressar os próprios sentimentos, sem julgamento. Raramente este é o caso.


Assim, nos meios que não favorizam o desenvolvimento emocional, os sentimentos são bloqueados. Os julgamentos do ambiente são pouco a pouco interiorizados pelo individuo ao ponto que ele aprende a bloquear suas emoções, suas intuições, seus processos criativos e até mesmo suas sensações corporais. A perda de contato com tudo isto torna-se a opção mais “sensata”, ou ao menos a mais econômica para poder se adaptar. Uma separação entre pensamentos, emoções e sensações corporais se instala, o que vai permitir de manter esse disfuncionamento.


Problemas psicossomáticos e de comportamento, compulsões, relações neuróticas e outras dificuldades podem aparecer. Elas podem ser consideradas como formas de expressão de um organismo que perdeu as capacidades de se autorregular e de entrar em acordo consigo mesmo, resumindo, um organismo que deixou de evoluir emocionalmente.


Falar pode ser terapêutico. Trata-se de compreender as experiências vividas verbalizando-as num contexto acolhedor onde a ausência de julgamento faz parte do contrato. A escuta empática compõe este quadro propicio ao desenvolvimento da inteligência emocional e da afirmação de si.


Mas...

Independente da benevolência do interlocutor, algumas boas práticas podem ser adotadas por estes que querem se expressar de maneira mais autêntica. Essas técnicas, próprias à metodologia da comunicação não-violenta[5], são:

1) Falar em seu nome próprio, utilizando EU ao invés de TU ou VOCÊ

2) Tentar se concentrar nos fatos e nos sentimentos. Isto não quer dizer negar as interpretações, mais tentar não ser dominado pelas interpretações. O que pensamos ter visto ou ouvido nem sempre corresponde aos fatos reais e sim às interpretações.

3) Evitar também confundir os sentimentos com os “falsos sentimentos”. Eles falam de interpretações das ações do outro (Ex. Sinto-me humilhado, rebaixado, abandonado, valorizado, etc...)

4) Identificar as necessidades (frustradas ou satisfeitas) escondidas atrás dos sentimentos.

5) Fazer um pedido claro e sobre um ponto especifico ao outro evitando de aumentar as cargas emocionais ligadas às situações vividas no passado.


Um exemplo :

Maria diz a seu namorado que ela se sente abandonada pois ele esqueceu de lhe telefonar na hora que eles tinham combinado na véspera. Seu amigo sente a expressão um pouco excessiva. Não querendo carregar o peso da culpa ele começa a se defender e fala das situações passadas nas quais Maria não honrou seus compromissos. Eles trocam uma série de acusações mutuas e depois ficam alguns dias sem se falar.


Se Maria compreendesse que “abandonada” não é uma expressão de um verdadeiro sentimento, mais uma interpretação da ação do outro, ela poderia talvez descobrir que na verdade ele ficou triste. Ela esperou a ligação de seu namorado e o fato que ele não telefonou na hora combinada fez ela pensar que não era tão importante para ele.


Ela teria podido então expressar isso que ela sentia (tristeza) e a interpretação que ela tinha feito. Ele poderia então dize-la que ele não estava certo do lugar onde ele gostaria de convidá-la. Pois na verdade ele gostaria de lhe agradar procurando um lugar charmoso. Não tendo encontrado esse lugar “ideal”, ele “travou” e não conseguiu telefoná-la.

Esse exemplo simples mostra como a forma de expressar sentimentos – ou mesmo de não expressá-los – afeta diretamente nossas relações, mas também o modo de gerir os sentimentos vividos.

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Referências bibliográficas

[1] psicóloga, psicoterapeuta, PhD em Saúde pública (Fiocruz, Brasil)

[2] Rogers, C., Farson, Richard E. Active listening.

[3] Mucchielli, A. (1995). La communication projective. Dans : A. Mucchielli, Psychologie de la communication (pp. 151-165). Paris cedex 14, France: Presses Universitaires de France.

[4] Bakhtin, M. (2010). Problemas da “Poética de Dostoievski”. Ed. Forense Universitaire

[5] Rosenberg, M. (2006). Comunicação não-violenta


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