• Prange, A. P.

O trabalho nunca é neutro

Mis à jour : mai 12

Ana Paula Prange [1]



O trabalho nunca é neutro. Ele afeta a saúde tanto positiva quanto negativamente, assim como a subjetividade e a vida familiar. Compreender as relações entre o trabalho e a subjetividade é uma das proposições da Psicodinâmica do trabalho.

O trabalho pode causar tanto sofrimento como prazer. Para compreendermos o quanto o trabalho pode gerar prazer é preciso de início compreender que as pessoas, quando encontram as condições mínimas que respeitam seu “existir”, elas desejam contribuir com seu ambiente. Desde a mais tenra idade os seres humanos manifestam iniciativas nesse sentido, exprimindo o desejo de cooperar com os que habitam na mesma comunidade.

A ideia de que o ser humano é, “por natureza”, preguiçoso e precisa de estímulos externos para colaborar é falsa. O ser humano, quando em condições favoráveis ao seu desenvolvimento, deseja cooperar. As experiências realizadas com crianças pequenas e seu comportamento “naturalmente” altruísta, confirmam esta ideia.

O desenvolvimento não termina com o fim da infância

O desenvolvimento não termina com o fim da infância. Ao contrário, nós temos sempre a possibilidade de evoluir et de perceber as realidades que se apresentam através de maneiras mais criativas, sem nos tornarmos vítimas passivas de situações vividas e sem negar as complexidades dos fenômenos existenciais.


As atividades, incluindo aquelas desenvolvidas no trabalho, são ocasiões de nos transformar à medida que transformamos os objetos, as técnicas e os conhecimentos para lhes oferecer ao mundo.

Wilhelm Reich, médico e psicanalista, dizia que trabalho, amor e o conhecimento são as fontes da nossa vida. O tipo de relação que podemos estabelecer com cada um destes domínios de nossa vida, mais ou menos saudável, determina a qualidade de nossa energia. A mesma energia que teremos para investir nas relações, nos projetos, nos percursos de transformação existencial, na busca de conhecimentos e nas práticas adotadas.

Para Dejours, o trabalho ocupa um lugar central na constituição da subjetividade, assim como a sexualidade. Para resolver este « impasse » de duas instâncias ocupando o mesmo centro, o autor francês propôs então o termo « paradoxo da dupla centralidade ».


Se nos concentramos no trabalho e suas relações com a subjetividade, podemos observar que a escolha profissional pode influenciar profundamente as escolhas amorosas, os valores, o estilo de vida, as relações sociais, etc.


E o mesmo acontece com nossas escolhas amorosas, afetivas e eróticas, elas compõem nosso estilo de vida e influenciam também as escolhas profissionais e modos de trabalho. Além disso, as práticas profissionais podem também gerar comportamentos específicos que se estenderão para além da jornada de trabalho. O trabalho « coloniza » nossa subjetividade, impacta nossas relações sociais e transforma nossa identidade.

Prazer e sofrimento

O prazer obtido numa dada atividade profissional não impede, porém, que o sofrimento esteja presente. O sofrimento se dá a partir do contato com as frustrações e obstáculos apresentados pela realidade. Se não pode ser transformado criativamente, torna-se um tipo de sofrimento incapacitante e com alto nível de patogenicidade.

Em determinadas organizações de trabalho o sofrimento pode ser intensificado em função do tipo de tarefa, do estilo de organização, das relações entre os colegas e com a chefia e o nível de reconhecimento obtido. Para evitar o sofrimento os seres humanos ativam mecanismos de defesa diversos, sendo que nos coletivos de trabalho esses mecanismos passam eventualmente a ser compartilhados coletivamente.

Este fenômeno é muito estudado pela psicologia no âmbito individual. A descoberta da Psicodinâmica do trabalho é que eles podem também ser desenvolvidos e mantidos no nível coletivo. Dentro de um grupo de trabalho este fenômeno foi estudado em diversos contextos, sendo um dos mais conhecidos a resistência de operários em relação aos procedimentos de segurança do trabalho. Essa resistência se transformava, em alguns casos, em comportamentos desafiadores em relação aos riscos incluindo maratonas perigosas, trotes ou rituais de exaltação da masculinidade em grupo.

O sentimento de medo vivido num contexto de trabalho arriscado era negado em função de uma estratégia coletiva de defesa. Se ela se intensifica até um nível elevado, ela se torna uma ideologia defensiva. é quando a estratégia defensiva se transforma numa doença compartilhada coletivamente. As consequências são desastrosas tanto para a saúde mental dos trabalhadores como para a evolução dos processos de trabalho. Quando o objetivo principal passa a ser o de manter a ideologia defensiva, o trabalho perde sua racionalidade, a atividade se torna esvaziada em diversos sensos.

Por mais que debatamos o trabalho como especialistas, é necessário, porém, quando possível, envolver seus atores, dar voz aos trabalhadores, permitindo que eles tomem consciência de toda a inteligência convocada para a realização das atividades assim como a riqueza subjetiva mobilizada.

Isso que os gestores precisariam entender

Conscientes da importância da organização do trabalho e do estilo de gestão para a saúde mental, os gerentes e responsáveis podem repensar suas maneiras de conduzir sua equipe e as tarefas que designam para os trabalhadores.


É preciso, entretanto, dar a palavra aos trabalhadores, permitindo que eles possam discutir os processos de trabalho e as escolhas feitas nos seus cotidianos sem fazer desses processos e escolhas questões pessoais. Esses diálogos servem sobretudo para promover a cooperação e reforçar a comunicação.

Como dar voz aos trabalhadores e fortalecer os coletivos de trabalho são dois dos maiores desafios que podemos encontrar nos dias atuais quando pensamos o trabalho sob o prisma da Psicodinâmica do trabalho. Até que essa prática venha a ser reconhecida e se torne mais difundida, é tarefa de cada trabalhador se cuidar e tentar se virar sozinho, adotando uma prática a nível individual…


Praticas como a psicoterapia, mas também as técnicas de cuidados do corpo podem ser muito eficazes, mas a questão que não quer calar é… até quando vamos continuar a colocar todo o peso da responsabilidade do sofrimento no trabalho nas costas de cada trabalhador, dentro de uma proposta hiper-psicologizante, ao invés de mudar as condições sociais potencialmente patogênicas?

Como outros domínios do saber, a Psicodinâmica do trabalho não tem todas as respostas. Mas nos ajuda a compreender diversos fenômenos do mundo do trabalho, e isso é já um grande passo.

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​[1] psicóloga, psicoterapeuta, PhD em Saúde pública (Fiocruz, Brasil)


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